Tomás Novelino

De menino órfão a educador
A história de Tomás Novelino começa em 6 de outubro de 1901, em Delfinópolis, Minas Gerais.
Filho de Tomás Novelino de Aquino e Auta Maria das Dores Novelino, ficou órfão de pai e mãe ainda criança. Aos sete anos, foi encaminhado, junto com os irmãos, para o Orfanato Anália Franco, em São Paulo, onde permaneceu por alguns anos.
A experiência de viver em uma instituição de acolhimento marcaria sua trajetória. Mais tarde, em 1916, aos 15 anos, Tomás foi para Sacramento, Minas Gerais, estudar no Colégio Allan Kardec, dirigido pelo educador Eurípedes Barsanulfo.
Foi uma convivência decisiva.
Tomás considerava Eurípedes um de seus grandes mestres e carregou durante toda a vida os princípios de educação e formação moral que aprendeu com ele.
Depois da experiência em Sacramento, seguiu para o Rio de Janeiro para estudar Medicina. Formou-se em 1928 pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

O médico que chegou a Franca
Depois de formado, Tomás começou a exercer a medicina no interior de Minas Gerais, passando por Ibiraci e Monte Santo de Minas.
Em 1933, chegou a Franca. A intenção inicial era permanecer por pouco tempo, mas a cidade acabou se tornando seu lar definitivo.
Tomás passou a trabalhar no Hospital Allan Kardec, onde atuou como voluntário durante 27 anos. Também exerceu a medicina na Santa Casa de Misericórdia, onde foi diretor clínico por muitos anos, trabalhando como clínico-geral, cirurgião e parteiro. Também lecionou Medicina Legal na Faculdade de Direito de Franca.
Maria Aparecida e um sonho em comum
Em 1936, Tomás se casou com a professora Maria Aparecida Rebêlo Novelino.
Os dois tiveram seis filhos e compartilhavam algo que acabaria mudando a história de Franca: o desejo de trabalhar com educação.

Maria Aparecida era professora e já tinha experiência no ensino. Tomás, por sua vez, carregava desde a juventude a influência de Anália Franco e Eurípedes Barsanulfo.
A ideia de criar uma escola ganhou força quando o casal se deparou com um episódio de intolerância religiosa envolvendo estudantes espíritas. O caso provocou uma reação e ajudou a transformar o antigo desejo de criar uma escola em um projeto concreto.
Nasce a Escola Pestalozzi
Em 1º de agosto de 1944, Tomás e Maria Aparecida colocaram em prática o projeto.
Na Rua Monsenhor Rosa, no centro de Franca, começou a funcionar a Escola Pestalozzi.
A proposta ia além do ensino convencional. O casal queria unir educação, formação moral e assistência, inspirando-se nos princípios do educador suíço Johann Heinrich Pestalozzi.
O projeto cresceu e se transformou na Fundação Educandário Pestalozzi.
Mas havia um problema: como manter uma instituição que atendia crianças e precisava de recursos permanentes?
Tomás encontrou uma resposta que também tinha inspiração em Pestalozzi: educação e trabalho poderiam caminhar juntos.

O médico que virou fabricante de sapatos
Em meados dos anos 1950, Tomás decidiu criar uma fábrica de calçados para ajudar a financiar as atividades da Fundação.
A primeira experiência foi pequena e difícil.
Ele chegou a adquirir uma pequena fábrica de calçados e, diante das dificuldades, aprendeu ele próprio a modelar e produzir sapatos infantis. A ideia era envolver os alunos e criar uma experiência em que educação e trabalho estivessem relacionados.
A experiência inicial, porém, não funcionou como esperado.
As crianças não tinham condições de assumir o ritmo e as responsabilidades de uma produção industrial, e a proposta precisou ser reformulada.
Em 1961, a atividade foi profissionalizada e deu origem à Fábrica de Calçados Pestalozzi. A indústria passou a gerar recursos para ajudar a manter os projetos educacionais e assistenciais da Fundação.
O médico havia se transformado também em empresário e até em modelista de calçados.
Educação, assistência e ciência
A Fundação continuou crescendo.
Foram criadas novas unidades educacionais, o Lar-Escola e outros projetos voltados ao atendimento de crianças.
A instituição também adquiriu uma fazenda, que ajudava na manutenção das atividades e na produção de alimentos.
E Tomás ainda encontrou espaço para outra paixão, a ciência.

Ele construiu um observatório astronômico em uma das propriedades da Fundação, utilizado para estudos e também aberto à comunidade. A preocupação com a formação integral fazia com que educação, ciência, cultura e assistência caminhassem juntas.
A tradição ligada à astronomia permaneceu associada ao seu nome. Em 2009, a Prefeitura de Franca inaugurou o Observatório Astronômico Dr. Tomás Novelino, no Complexo Champagnat.

O nascimento de uma instituição de ensino superior
O projeto educacional de Tomás também alcançou o ensino superior.
Em 1972, foi criada a Faculdade Pestalozzi de Ciências, Educação e Tecnologia de Franca. Poucos anos depois, em 1975, a instituição passou a se chamar União das Faculdades Francanas, a UNIFRAN, que posteriormente se tornou a Universidade de Franca.
Tomás também teve participação importante na aproximação com Clóvis Ludovice, que assumiu os cursos da Faculdade Pestalozzi e posteriormente teve papel fundamental na estruturação da instituição que daria origem à atual Universidade de Franca.
Um legado que atravessou gerações
Tomás Novelino morreu em Franca em 31 de outubro de 2000, aos 99 anos.
Sua trajetória, porém, continuou presente na cidade.
O homem que perdeu os pais ainda criança construiu uma vida dedicada à medicina, à educação e à assistência. Ao lado de Maria Aparecida, transformou um sonho de juventude em uma instituição que atravessou décadas e gerações.
Sua história também ajuda a entender uma característica marcante de Franca: a presença de pessoas que, além de suas profissões e negócios, criaram instituições que passaram a fazer parte da própria formação da cidade.
Tomás Novelino começou a vida como uma criança que precisou ser acolhida.
Terminou como alguém que dedicou boa parte da existência a criar lugares onde outras crianças pudessem estudar, aprender e encontrar oportunidades.
E talvez esteja aí uma das partes mais importantes de sua história, ele transformou uma experiência de infância em uma missão para a vida inteira.



